Estratégia

Participação nos lucros na pequena empresa: o que o Savegnago ensina

O Savegnago divide 25% do lucro com os funcionários desde 1978, com margem abaixo de 3%. Como uma PME pode começar com metas simples.

Time Nucleo · 29 de outubro de 2026 · 6 min de leitura

Em 1976, Aparecido Savegnago colocou o que tinha, inclusive a casa da família, num mercadinho de 300 m² em Sertãozinho. Dois anos depois, tomou uma decisão que até hoje parece contraintuitiva: dividir 25% do lucro líquido com os funcionários. Todos eles, do açougueiro ao gerente de loja.

A regra nunca mudou. Hoje o Grupo Savegnago fatura R$ 7,9 bilhões, tem 64 supermercados, 11 atacarejos Paulistão e mais de 14 mil funcionários no interior de São Paulo, e já prepara uma loja no Shopping Dom Pedro, em Campinas. A participação nos lucros continua sendo paga duas vezes por ano: em julho, sobre o primeiro semestre, e em janeiro, sobre o segundo.

A maior parte da imprensa tratou isso como notícia de RH. É mais do que isso: é estratégia de marca.

A conta que parece não fechar

Supermercado é um negócio de margem apertada. O diretor-presidente, Chalim Savegnago, resume sem rodeio: “É menos de 3% na última linha, então a gente tem que administrar isso.” Ou seja, de cada R$ 100 vendidos, sobram menos de R$ 3 de lucro. E, desse pouco, um quarto vai para o time.

Se a rede faz essa conta com menos de 3% de margem há quase 50 anos, a pergunta para a pequena empresa deixa de ser “posso dividir?” e passa a ser “quanto me custa não dividir?”. Rotatividade, treinamento que se perde, atendimento sem dono e cliente que percebe tudo isso.

Falta de gente antes da falta de cliente

O varejo vive um gargalo que não está na vitrine: encontrar e manter pessoas. O Savegnago atacou isso em várias frentes ao mesmo tempo. Depois de um piloto no fim de 2025, levou a escala 5x2 para todas as lojas no início de 2026, mantendo as 44 horas semanais. E sem repassar a conta ao cliente: “Precisamos repor alguns funcionários aqui, ali, mas nada que fez mexer nos preços”, disse Chalim. A rede também mantém copa para os funcionários em mais de 80% das lojas.

A lógica é simples: antes de gastar para atrair mais clientes, garanta que existe gente boa, estável e motivada para atendê-los.

O funcionário é o primeiro cliente da marca

Chalim tem uma frase que explica o modelo inteiro: “A nossa empresa tem dois olhos: um para olhar para os funcionários, outro para olhar para os clientes.”

O olho do cliente aparece no mix. Em vez de empurrar marca própria, a rede chega numa cidade nova e coloca na gôndola as marcas líderes daquela região. “Nós queremos vender para os nossos clientes os produtos que eles gostam de comprar”, diz Chalim. E isso é guiado por dados: segundo a empresa, 85% das vendas são identificadas no CRM, que orienta o sortimento de cada loja.

O olho do funcionário é a participação nos lucros. Quem ganha quando a loja vai bem cuida do estoque, evita perda, atende melhor e fica mais tempo. É aí que a marca deixa de ser logotipo e vira experiência: o cliente sente, na ponta, como a empresa trata quem está atrás do balcão.

Participação nos lucros na pequena empresa: por onde começar

Ninguém precisa começar com 25%. O que funciona é uma regra simples, clara e cumprida.

Uma conta de exemplo

Uma loja fatura R$ 150 mil por mês e definiu a meta do semestre em R$ 900 mil. Se o semestre fechar em R$ 1 milhão, sobram R$ 100 mil acima da meta. Com margem de 10% sobre esse excedente, são R$ 10 mil de lucro extra. Dividir 30% disso dá R$ 3 mil para o time, um valor que a empresa só paga porque ganhou mais. É um começo pequeno, mas com o mesmo princípio de quem divide um quarto do lucro desde 1978.

Erros comuns

O que fica

Marca forte começa de dentro. O cliente percebe quando quem atende quer que a loja dê certo, e isso nenhuma campanha substitui. Na Nucleo, quando construímos a marca de uma empresa, olhamos para os dois lados: a mensagem que vai para o cliente e a experiência que o time entrega na ponta.

Fontes: Exame (8/8/2026), D Marília (10/8/2026) e Seu Dinheiro (15/9/2026). Este conteúdo não substitui a orientação do seu contador ou advogado.